Acordar cedo é difícil. Pra mim, pelo menos, é. Acordar às 3h30 sob uma chuva torrencial equivale à quebra de um recorde olímpico. E era mais ou menos com esse espírito que eu deveria começar o dia da última quarta-feira.
5h na TV, 5h30 no porto do São Raimundo, 6h na balsa, 6h45 no Iranduba, 7h30 no Km 38 da estrada Manoel Urbano. Cronograma seguido à risca para o “Athletics in the Jungle”. Oficialmente, o evento representava uma comemoração dos 90 anos da Confederação Sul-americana de Atletismo (CONSUDATLE), presidida pelo amazonense Roberto Gesta. Mas o comentário era que a “presepada toda é uma miguelagem pros cara votarem no Brasil pra sede das olimpíadas de 2016”, segundo um espontâneo senhor envolvido na organização.
E não era pra menos, a competente confederação conseguiu reunir praticamente todos os principais nomes do atletismo. E o melhor, nomes conhecidos de décadas passadas que mantiveram-se no esporte como líderes de organizações internacionais esportivas – alguns deles diretamente ligados a escolhas de sedes olímpicas. Na lista de convidados estavam Sebastian Coe (“o cara” das olimpíadas de Londres 2012), Sergey Bubka (medalha de ouro em Seul 1988 e líder do esporte na Ucrânia), Lamine Diack (autoridade máxima do atletismo mundial), entre outros. Além das estrelas brasileiras em Pequim, Maurren Maggi e Fabiana Murer (aquela que perdeu a vara).
O cenário estava do jeito que gringo gosta! No picadeiro, digo, na pista improvisada pela comunidade indígena Sahu-ape, dezenas de crianças disputavam provas de “30 metros rasos” para a alegria dos visitantes que assistiam da arquibancada ao lamaceiro – lembra que choveu a madrugada inteira? Pois é.
Já a comunidade foi uma atração à parte. Não pelos atletas mirins, mas pelos papais deles. Nosso colega Dudu foi tentar negociar uma carona de voadeira para atravessar um trecho do rio Ariaú e o generoso índio dono do barquinho já gritou de longe: “A gente aceita Real se o senhor preferir!” – exclamou o sorridente satere-mawe guardando alguns dólares na tanga. No final do evento, outro colega, o Rafael, resolveu puxar assunto com a cacique da aldeia e responsável pela venda do artesanato.
- Bonito seu trabalho. A senhora sobrevive dessa venda?
- A gente tenta, mas vocês não compraram nada, né?!
Já no retorno, comentei a história com um rapaz que nasceu na Sahu-Ape, mas estuda em Manaus. Depois de ouvir com um sorriso meio debochado, o cabeludo olha pra mim e solta a pérola do dia: “A gente aprendeu tudo isso com vocês”.
Vai dizer que não?!
+ info: www.portalamazonia.com/jungle

Lambança prestes a começar!